Carga de treino e lesões no futebol: o que dizem os estudos

Estudos com jogadores de futebol associam aumentos bruscos de carga de treino a mais lesões, e uma base de carga bem construída a menos lesões. São associações. Nenhum dos estudos citados testou se controlar a carga reduz lesões, e a razão aguda:crônica, usada em muitos deles, é contestada. O GPS mede a carga externa, mas não prevê sozinho quem vai se machucar.

Quantas lesões acontecem no futebol profissional?

No estudo de lesões da UEFA (Union of European Football Associations), que acompanhou 23 times de elite da Europa por sete temporadas, houve 8,0 lesões a cada 1.000 horas de exposição. Em jogo, a taxa foi de 27,5 por 1.000 horas; em treino, de 4,1. Cada jogador teve em média duas lesões por temporada: cerca de 50 num elenco de 25 (Ekstrand et al., 2011).

No Brasil, os estudos publicados medem só as lesões em jogo:

Competição Lesões por 1.000 horas de jogo Estudo
Série A 2016 24,9 Netto et al., 2019
Paulistão 2016 (A1 e A2) 21,32 Arliani et al., 2017
Série A 2019 20,5 Arliani et al., 2021

Na Série A de 2016, 26,7% dos atletas se lesionaram em partidas. Os números brasileiros e europeus não são diretamente comparáveis: os estudos brasileiros estimam a exposição com 22 jogadores por 90 minutos e não incluem treinos.

O que é carga de treino?

É a quantidade de esforço que o atleta faz. A carga externa é o que ele fez: distância, velocidade, sprints, acelerações. O GPS mede essa parte. A carga interna é como o corpo respondeu, medida por frequência cardíaca ou percepção de esforço. Um índice comum de carga interna é o s-RPE (session rating of perceived exertion), a percepção de esforço multiplicada pelos minutos da sessão.

Três termos aparecem em quase todos os estudos:

  • Carga aguda: a carga da última semana.
  • Carga crônica: a média das últimas quatro semanas.
  • Razão aguda:crônica, ou ACWR (acute:chronic workload ratio): a carga aguda dividida pela crônica.

Uma razão de 2,0 quer dizer que a última semana teve o dobro da carga média recente.

O que os estudos encontraram?

Estudo Quem foi acompanhado O que encontrou
Bowen et al., 2017 32 atletas da base de um clube da Premier League (sub-18 e sub-21, média de 17 anos), por duas temporadas Quem acumulou 9.254 acelerações ou mais em três semanas teve risco de lesão 3,84 vezes maior; para lesão sem contato, 5,11 vezes
Bowen et al., 2020 33 profissionais de um clube da Premier League, por três temporadas Semanas com razão aguda:crônica acima de 2,0 em acelerações, desacelerações ou distância em baixa intensidade, em atletas com pouca carga crônica, tiveram risco de lesão sem contato 5,4 a 6,7 vezes maior
Malone et al., 2018 37 jogadores de elite de um elenco, por uma temporada Quem aumentou de 75 a 105 m a distância de sprint de uma semana para a outra teve chance de lesão cerca de seis vezes maior. Volume moderado de corrida em alta velocidade e de sprint apareceu com menos lesões
Ehrmann et al., 2016 19 profissionais da liga australiana de futebol, por uma temporada Na semana anterior à lesão, a intensidade em metros por minuto foi 9,6% maior que a média da temporada

Os quatro estudos são observacionais e pequenos, cada um com um único clube, e mostram só associação. Bowen et al. (2017) viram que picos de corrida em alta velocidade só se associaram a mais lesões sem contato quando a carga crônica era baixa.

Por que a razão aguda:crônica (ACWR) é contestada?

Em 2016, Tim Gabbett reuniu estudos anteriores e descreveu uma faixa ideal ("sweet spot") entre 0,8 e 1,3 e uma zona de perigo a partir de 1,5. Esses limites vieram sobretudo de estudos com críquete, rugby league e futebol australiano, e o próprio autor alertou que esportes diferentes podem ter relações diferentes entre carga e lesão (Gabbett, 2016). Depois vieram as críticas:

Estudo O que apontou
Impellizzeri et al., 2020 Nenhum estudo estimou efeito causal de forma adequada, e não há evidência para usar a razão na gestão de carga
Lolli et al., 2019 A semana atual entra no numerador e no denominador da conta. Esse acoplamento matemático pode criar uma correlação que não existe
Impellizzeri et al., 2021 Numa reanálise, a razão não previu lesões melhor que um modelo sem nenhum dado de carga. Os autores propõem abandoná-la
Andrade et al., 2020 Revisão de 20 estudos com 1.234 atletas de esportes coletivos. A maioria encontrou mais lesões com razão alta, mas os estudos usaram 14 formas diferentes de agrupar a razão em faixas, o que impede uma regra única
Jiang et al., 2022 Revisão de 20 estudos com profissionais do futebol masculino. Não dá para afirmar se as métricas de GPS se associam ao risco de lesão. Os preditores baseados em percepção de esforço tiveram AUC (área sob a curva) entre 0,4 e 0,6; uma AUC de 0,5 equivale ao acaso

O que a comissão técnica pode tirar disso?

Os pontos em que as fontes convergem:

  • Saltos bruscos de carga aparecem junto de mais lesões (Bowen et al., 2017 e 2020; Malone et al., 2018; Andrade et al., 2020).
  • Uma base de carga crônica maior aparece junto de menos risco (Bowen et al., 2017 e 2020; Malone et al., 2018; Gabbett, 2016).
  • Um volume moderado de corrida em alta velocidade e de sprint toda semana apareceu associado a menos lesões (Malone et al., 2018).
  • Treino de alta intensidade pode envolver risco maior de lesão (Jaspers et al., 2017).
  • Não existe limiar universal: a faixa de 0,8 a 1,3 e o corte de 1,5 vêm de outros esportes, e Bowen et al. (2020) viram risco maior acima de 2,0.

O que o GPS mede e o que fica de fora?

O GPS mede a carga externa com boa precisão: num teste com aparelhos de 10 e 18 Hz (dez e dezoito leituras por segundo) de uma mesma marca, o erro na distância foi de cerca de 1% a 2% (Beato et al., 2018). Ele não mede a carga interna, o sono, o estresse nem o histórico de lesões do atleta. Nenhuma métrica de carga, usada sozinha, previu bem as lesões (Jiang et al., 2022).

O valor do GPS está em mostrar a carga externa de cada atleta, dia a dia, para a comissão enxergar os saltos bruscos que a pesquisa associa a lesões. A decisão de poupar ou liberar um atleta continua com a comissão e o departamento médico. O post Como funciona o GPS dos jogadores de futebol explica a precisão em detalhe.

Perguntas frequentes

Controlar a carga de treino evita lesões?

Não há prova disso. Os estudos mostram associação entre saltos de carga e lesões, e nenhum testou se controlar a carga reduz lesões.

Qual é a razão aguda:crônica ideal no futebol?

Não existe valor validado para o futebol. A faixa de 0,8 a 1,3 veio de outros esportes, e a própria métrica é contestada.

Quantas lesões um elenco tem por temporada?

No estudo da UEFA com times de elite da Europa, cerca de 50 por temporada num elenco de 25 jogadores (Ekstrand et al., 2011).

O GPS mede a carga interna?

Não. O GPS mede a carga externa. A carga interna exige frequência cardíaca ou percepção de esforço.

A plataforma da Capita soma a carga de cada atleta, sessão após sessão, com os dados do VL58. Veja como funciona o monitoramento de carga de treino na plataforma.

Fontes

  1. Andrade R, Wik EH, Rebelo-Marques A et al. Is the Acute: Chronic Workload Ratio (ACWR) Associated with Risk of Time-Loss Injury in Professional Team Sports? A Systematic Review of Methodology, Variables and Injury Risk in Practical Situations. Sports Medicine. 2020;50(9):1613-1635. https://doi.org/10.1007/s40279-020-01308-6
  2. Arliani GG, Lara PHS, Astur DC et al. Prospective evaluation of injuries ocurred during a professional soccer championship in 2016 in São Paulo, Brazil. Acta Ortopédica Brasileira. 2017;25(5):212-215. https://doi.org/10.1590/1413-785220172505167238
  3. Arliani GG, Lara PHS, Margato GF et al. Prospective study of injuries occurred during Brazilian football championship in 2019. Acta Ortopédica Brasileira. 2021;29(4):207-210. https://doi.org/10.1590/1413-785220212904241563
  4. Beato M, Coratella G, Stiff A, Iacono AD. The Validity and Between-Unit Variability of GNSS Units (STATSports Apex 10 and 18 Hz) for Measuring Distance and Peak Speed in Team Sports. Frontiers in Physiology. 2018;9:1288. https://doi.org/10.3389/fphys.2018.01288
  5. Bowen L, Gross AS, Gimpel M, Li FX. Accumulated workloads and the acute:chronic workload ratio relate to injury risk in elite youth football players. British Journal of Sports Medicine. 2017;51(5):452-459. https://doi.org/10.1136/bjsports-2015-095820
  6. Bowen L, Gross AS, Gimpel M et al. Spikes in acute:chronic workload ratio (ACWR) associated with a 5-7 times greater injury rate in English Premier League football players: a comprehensive 3-year study. British Journal of Sports Medicine. 2020;54(12):731-738. https://doi.org/10.1136/bjsports-2018-099422
  7. Ehrmann FE, Duncan CS, Sindhusake D et al. GPS and injury prevention in professional soccer. Journal of Strength and Conditioning Research. 2016;30(2):360-367. https://doi.org/10.1519/JSC.0000000000001093
  8. Ekstrand J, Hägglund M, Waldén M. Injury incidence and injury patterns in professional football: the UEFA injury study. British Journal of Sports Medicine. 2011;45(7):553-558. https://doi.org/10.1136/bjsm.2009.060582
  9. Gabbett TJ. The training-injury prevention paradox: should athletes be training smarter and harder? British Journal of Sports Medicine. 2016;50(5):273-280. https://doi.org/10.1136/bjsports-2015-095788
  10. Impellizzeri FM, Tenan MS, Kempton T et al. Acute:Chronic Workload Ratio: Conceptual Issues and Fundamental Pitfalls. International Journal of Sports Physiology and Performance. 2020;15(6):907-913. https://doi.org/10.1123/ijspp.2019-0864
  11. Impellizzeri FM, Woodcock S, Coutts AJ et al. What Role Do Chronic Workloads Play in the Acute to Chronic Workload Ratio? Time to Dismiss ACWR and Its Underlying Theory. Sports Medicine. 2021;51(3):581-592. https://doi.org/10.1007/s40279-020-01378-6
  12. Jaspers A, Brink MS, Probst SGM et al. Relationships Between Training Load Indicators and Training Outcomes in Professional Soccer. Sports Medicine. 2017;47(3):533-544. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0591-0
  13. Jiang Z, Hao Y, Jin N, Li Y. A Systematic Review of the Relationship between Workload and Injury Risk of Professional Male Soccer Players. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2022;19(20):13237. https://doi.org/10.3390/ijerph192013237
  14. Lolli L, Batterham AM, Hawkins R et al. Mathematical coupling causes spurious correlation within the conventional acute-to-chronic workload ratio calculations. British Journal of Sports Medicine. 2019;53(15):921-922. https://doi.org/10.1136/bjsports-2017-098110
  15. Malone S, Owen A, Mendes B et al. High-speed running and sprinting as an injury risk factor in soccer: Can well-developed physical qualities reduce the risk? Journal of Science and Medicine in Sport. 2018;21(3):257-262. https://doi.org/10.1016/j.jsams.2017.05.016
  16. Netto DC, Arliani GG, Thiele ES et al. Prospective Evaluation of Injuries occurred during the Brazilian Soccer Championship in 2016. Revista Brasileira de Ortopedia. 2019;54(3):329-334. https://doi.org/10.1055/s-0039-1692429

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